
É... Eu não te falei.
Eu não te falei, mas adorava aqueles nossos papos que se estendiam pela madrugada afora. Eu adorava te explicar as coisas, adorava sua fragilidade e sua inocência de menina pura perante essa vida tão maliciosa e real. Eu não te falei, mas no fundo você sabia, tinha sempre um jeitinho, o dom de anestesiar meu ser adulto, calejado e preocupado.
É... Eu não te falei.
Eu não te falei, mas me sentia absurdamente seduzido quando você olhava dentro dos meus olhos com seus olhos coloridos. Eu também não te falei, mas adorava na saudade desmedida, sentir o cheiro que seu perfume deixava no meu quarto, na minha cama e no meu travesseiro.
É... Eu não te falei.
Eu nunca te falei, mas amava quando você saía do banho de cabelos molhados, com a cara limpa e aquele cheirinho inconfundível e delicioso de mulher que acabou de sair do banho. Eu não te falei, mas na verdade você sabia que meu conceito de beleza tinha tudo a ver com a simplicidade e com o natural. Eu não te contei, mas você sempre soube que nesse ponto era muito fácil me agradar... Que não precisava se maquiar e muito menos, de permanecer horas e horas morrendo de calor embaixo daquele secador, que convenhamos - faz o barulho birrento que eu tanto odeio – e morrerei odiando.
É... Eu não te falei.
Eu me furtei de dizer, mas achava o máximo nossa postura resumida, diferente, incomum, divinamente auto-suficiente. Eu não te falei, mas você deixou no chinelo todas as outras bocas, todos os outros cheiros, todos os outros sexos, todas as outras mulheres que eu tive antes de você, inclusive aquela que te matava de ciúmes e tanto te incomodava.
É... Eu realmente não te falei.
Eu não te falei e o nosso amor morreu, secou, sumiu. Demorou a eternidade, custou noites de sono, mas o tempo enfim te matou dentro do meu peito. Que alívio bom! Que leveza! Que sensação maravilhosa de paz! Não se incomode se a gente não se encontra mais... Avulsos, os nossos prazeres, conceitos, desejos e sonhos não se misturam, são extremamente distintos um do outro. A realidade cotidiana nos abriga em mundos, lugares e cenários totalmente diferentes. E esse tanto abissal que hoje nos separa, me permite dizer com muita certeza: Que bom que eu não te falei! Na essência, na verdade, tudo isso era nítido, estampado, explícito - e você nunca viu, e você nunca mereceu ouvir da minha boca.
Na paz e no amor, fiquem bem!
Beijos,
Deco.
p.s: Esse blog não é nem nunca foi um diário da minha vida. Além dos questionamentos, conflitos e reflexões, ele também abriga textos fictícios.